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Meu nome é Nenúfar, este que vos escreve a alma, pois o outro ser,
esse não existe nos versos, não tem tempo para parar perante o inabalável rodar do dia, não tem cor, e sua vida perdeu a alquimia.
A minha escrita é um acidente. Sempre estudei números e fórmulas, descodifiquei algoritmos, e segui as normas. Fui apanhado do turbilhão do insensato, que me tirou o tapete, me aplicou rudes golpes e me fez gato-sapato.
É perante a folha que reclamo o direito de gritar, de chorar e resignar, perante a impotência da vida, e perante o horizonte que se desvaneceu no apertar de uma mão; feroz mão, que não atende nem se importa com o querer do coração.
O outro ser, amanhã tem um novo dia, novas contas, a mesma solidão!
O vai e vem do amanhecer e entardecer sem nada de novo, que não sejam os rostos apressados, os dias cansados, uma vida inglória, uma história de má memória!

Meu Guerreiro
Meu guerreiro regressa pela noite,
No findar do dia, volta cansado,
De uma batalha do mundo, do outro lado,
Meu guerreiro volta sem arma,
Sem causas e a força perdeu-a na lama,
Voltou para uma noite no teu regaço,
Pedindo do teu amor um pedaço,
Da tua boca o beijo,
E o aconchego do teu abraço!
Quando não estás, bato à porta da solidão,
Um fixar resignado nas batidas da minha mão,
Na tua porta, onde vejo meu rosto desfigurado,
Contra uma fechadura dourada,
Com um odor a nada e um sentir que nada faço,
Um baixar dos braços perante a réstia de sol,
E a esperança de te ver a partilhar meu lençol.
Meu guerreiro é meu corpo,
Este que vai à luta o tempo inteiro,
Que tenta decifrar o teu código secreto,
Enquanto aguarda o desenlace da seta do teu arqueiro,
Esse Cupido que te preenche o peito,
Onde deposito a confiança ,
Que leve força na sua seta , e te pegue certeiro!
Nenúfar 29/3/2008

A Emoção pelo Vidro
Sorriste ao dizer que já tinhas saudade,
E teus olhos brilharam,
Com a lágrima que fugiu da alma.
Teu olhar mostrou-te frágil e resignada,
Como quem sente o inevitável,
O soar do trompete a chamar à retirada,
E tu, com um andar desnorteado,
Foste ao encontro do teu dia;
Um contraste de emoções,
O contrariar da vida no abraço de dois corações,
O choro do corpo e da mente,
Perante o carinho, que órfão, me torna demente.
Ficou o vidro frio a separar a imagem do adeus,
Ficou de testemunha do meu pedido aos céus,
Uma prece, repetida vezes sem conta,
A olhar das marcas da minha mão,
A decifrar o mapa e a entender o coração.
Nenúfar 15/6/2008

À Descoberta
Descobri o teu beijo e o macio da tua mão,
Encontrei tuas pernas, onde me entrelacei ao serão,
Senti o fulgor do teu abraço,
E a vida deixou o cinzento e o tom baço,
No cerco da razão sobre a memória,
Ancorei sobre meu mundo de glória,
Num lance de gênio que tirei da cartola,
E de uma promessa que li no cristal da bola.
Contou-me uma Duna Encantada,
Que do seu cume se vê o futuro,
E na artimanha da minha jogada,
Subi ao teu pescoço, como quem trepa o muro,
E encontrei teus lábios, onde mergulhei na minha sede,
Deitei sobre teu corpo balanceando na rede,
E meus versos ganharam o brilho e a cor,
Do anel que te preenche o dedo e te faz meu amor.
Nem tudo é um arco-íris de cor,
Mas o mundo vai amaciando a dor,
No calor do teu corpo, e no resignar da mente,
Ajeita-se as idéias sobre um novo mapa,
E a vida ganha velocidade com o sopro do teu beijo,
E os destroços se diluem, ganham força meus desejos,
Na descoberta do outro lado,
Uma viragem de rumo, novos versos no meu fado.
Nenúfar 11/10/2008
http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=20548
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